Quando tive acesso pela primeira vez a obra antológica de Sigmund Freud O Mal-estar na Civilização, a primeira idéia que me veio à cabeça – transportando todos aqueles conceitos e idéias para o cotidiano da contemporaneidade – foi a do universo destruidor das drogas e o quanto ela é capaz, com tão poucos recursos e em tão pouco tempo, desestabilizar um ser humano. Com o passar dos anos a sétima arte abrigou o tema em suas produções, muitas vezes de forma equivocada, caricatural, por certo até exagerada, em outros com uma maestria descomunal (casos esses que exemplifico através de películas como Drugstore Cowboy, de Gus Van Sant e o inesquecível Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída...). Contudo, sempre me perguntei quando essa temática nos apresentaria a um ator centrado, sem firulas, que pudesse nos comover na medida certa, sem precisar recorrer a clichês em demasias ou a faces e bocas desnecessárias. Pois bem: se depender disso, o cineasta Scott Kalvert pode se considerar um exibidor consagrado pela façanha realizada há treze anos, quando filmou esse profundo e muito bem realizado Diário de um Adolescente.
Década de 70: o jovem e inconstante Jim Carroll (Leonardo Dicaprio em uma de suas interpretações mais febris e corajosas de toda a carreira) é o típico garoto problema. Ou, para quem prefere definições mais populares, ele é o bad boy, o transviado – esse termo é antigo, aprendi com os meus pais -, o rei do pedaço. Aquele ao qual sistema ou autoridade nenhuma põe freio nem consegue conter nem com camisa de força. Anda pelas ruas com sua galera, zoando, fazendo bagunça pelas vias públicas e drogando-se em qualquer esquina, entre uma partida de basquete e outra e, principalmente, parando nos intervalos para escrever em seu diário narrativas complexas que mostram por um lado a imaturidade do jovem que acredita ser capaz de tudo, estar acima de qualquer lei, e por outro descrições poéticas e enaltecedoras de um mundo aprisionado por um corpo em rebeldia constante. Quando a vida que escolhe para si torna-se mais do que um vício, uma maldição (fazendo com que abandone os estudos, a família e tudo de mais importante que existia até então), ele vai percebendo que não só aquela existência é um beco sem saída como, pior do que isso se dá conta de que somente com seu intelecto e força de vontade não conseguirá vencer essa batalha.
A trilha sonora majestosa criada por Graeme Revell pontua bem as aflições e desajustes desse “homem” preso a um corpo infantil, conduzindo a um manancial de decepções que vai aumentando passo a passo num crescendo de destruição arrebatadora. O Roteiro de Bryan Goluboff, baseado no diário pessoal do próprio Jim, também é outro ponto chave da produção, por mostrar as ligações de amizade, respeito mútuo e lealdade entre os membros da gangue de jovens, mesmo num ambiente onde deveria reinar a desconfiança e os atos mais traiçoeiros possíveis. Talvez o que tenha faltado a Diário de um Adolescente tenha sido uma direção de fotografia inquietante, aprisionadora, opressiva, como se vê em filmes como Brilho Eterno de uma Mente sem lembranças, Ensaio sobre a Cegueira e O Escafandro e a Borboleta (ou seja, um realizador de imagens combinadas à iluminação que fosse capaz de incomodar com seqüências visuais opacas os olhares dos espectadores, perplexos diante de tamanha desesperança e tristeza).
Contudo, mesmo na ausência de imagens vibrantes, surreais, Diário se sai bem ao apresentar uma pequena parcela (pequena, mas poderosa) de uma geração de desajustados, numa época em que até mesmo as drogas não tinham o contexto degradante tão escancarado como tem hoje. Faz-se aqui um filme de transição para a atual geração de viciados em entorpecentes que temos hoje. Começamos a perceber a partir das jornadas de Jim Carroll, Pedro (James Madio), Neutron (Patrick McGaw) e Mickey (um Mark Wahlberg ainda revelação, mas que já mostrava as características marcantes do grande ator que se tornaria ao longo dos anos) os estereótipos que se tornariam moda nesse meio. E mais do que isso: o quanto o problema dos entorpecentes na humanidade é muito mais do que um problema social. Ele é um problema mental, psicológico e, acima de tudo, íntimo.