Um espaço para amantes da sétima arte que procuram por críticas exatas e profissionais, não se restringindo apenas a blockbusters

Domingo, Junho 07, 2009

Hora de se Reinventar




Chega um momento em que somente as ideias no papel (ou na tela) não são suficientes para manter o autor quieto, estável, no seu canto. após muitas brigas com este provedor de blogs, este humilde servos dos textos cinematográficos decide - em bom tempo - que é hora de se reinventar, de mudar, de transgredir, de dar um basta ao passado. por esse motivo ele muda o Claquete de casa por entender que será melhor para os fãs tanto da sétima arte quanto deste espaço cinematográfico, onde a proposta além de entreter é a de difundir questionamentos.

Para aqueles que desejam mais Claquete, o set agora é outro. Visite:

http://www.cinematotal.com/cineasta

Foto: Na Natureza Selvagem, de Sean Penn


Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

Lobo, de Miguel Courtois



Lobo (El Lobo, de Miguel Courtois, 2004, DVD, 123 Min.): ***1/2.


O terrorismo é sempre um tema intrigante, independente da maneira como temos acesso a ele. Sempre fico entre aflito e assoberbado, tentando entender o que move as pessoas de uma forma geral a se interessarem por tanta violência, perseguição, traições e jogo de poder. Por que o vilão é sempre admirado e seus crimes constantemente catapultados a categoria de genialidade? E, principalmente, por que questões como ética e respeito sempre são relegadas a segundo plano quando o que está em evidência é a marginalidade? Na belíssima produção Lobo, de Miguel Courtois, é louvável o trabalho do cineasta em destrinchar a caçada a uma organização criminosa, sem com isso glamourizar os fatos (sem cair, de certa maneira, na velha máxima do Tropicalismo de Gil e Caetano “seja marginal, seja herói”).

O filme acompanha a saga de José Maria Loygorri “Txema” (Eduardo Noriega, excelente) na pele do agente infiltrado pela polícia dentro do movimento E.T.A em prol da luta basca. Entre negociações, reuniões, planejamentos de ataque e envolvimentos amorosos, Txema vislumbra de forma ácida um mundo recheado de intrigas, disputas de ego, e uma inabalável vontade de fazer justiça com as próprias mãos a qualquer custo. No caso, essa escolha difícil custa a ele muito mais do que a própria liberdade, e sim a perda do convívio com sua esposa e filho além do respeito dos amigos de lutas passadas.

Vale uma (uma é pouco, várias) espiadas na edição competente de Guillermo S. Maldonado, na trilha sonora muito bem arquitetada de Francesc Gener e na fotografia ríspida de Nestor Calvo, pontos máximos da película. Toda a narrativa proposta no roteiro de Antonio Onetti vai crescendo gradativamente, enredando o espectador num ardil onde a cada momento que se passa um novo peão é colocado em meio ao jogo de gato e rato, não somente confundindo os desenlaces de cada seqüência como também chamando a atenção para informações as quais anteriormente o público não havia dado a devida atenção.

De uma forma geral, Lobo – seguindo a vertente de produções como Os Infiltrados, de Martin Scorcese, e Senhores do Crime, de David Cronenberg (ambas películas que trabalham muito bem a questão do espião encarcerado dentro de uma corporação criminosa) – é mais do que um mero entretenimento de ação e correria. É um ensaio profundo sobre o preço a se pagar pelo direito a ser livre. A partir dos passos proferidos por Txema, nos damos conta de quanto ser independente é complicado e, por vezes, transformado numa atitude amoral pela própria sociedade conservadora em que estamos inseridos. Um filme que, se não chega a ser espetacular, ganha a platéia por sua coragem e determinação em não temer a verdade dos fatos.



Quinta-feira, Janeiro 15, 2009

Diário de um Adolescente, de Scott Kalvert



Diário de um Adolescente (The Basketball Diaries, de Scott Kalvert, 1995, AXN, 101 Min): ****.


Quando tive acesso pela primeira vez a obra antológica de Sigmund Freud O Mal-estar na Civilização, a primeira idéia que me veio à cabeça – transportando todos aqueles conceitos e idéias para o cotidiano da contemporaneidade – foi a do universo destruidor das drogas e o quanto ela é capaz, com tão poucos recursos e em tão pouco tempo, desestabilizar um ser humano. Com o passar dos anos a sétima arte abrigou o tema em suas produções, muitas vezes de forma equivocada, caricatural, por certo até exagerada, em outros com uma maestria descomunal (casos esses que exemplifico através de películas como Drugstore Cowboy, de Gus Van Sant e o inesquecível Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída...). Contudo, sempre me perguntei quando essa temática nos apresentaria a um ator centrado, sem firulas, que pudesse nos comover na medida certa, sem precisar recorrer a clichês em demasias ou a faces e bocas desnecessárias. Pois bem: se depender disso, o cineasta Scott Kalvert pode se considerar um exibidor consagrado pela façanha realizada há treze anos, quando filmou esse profundo e muito bem realizado Diário de um Adolescente.

Década de 70: o jovem e inconstante Jim Carroll (Leonardo Dicaprio em uma de suas interpretações mais febris e corajosas de toda a carreira) é o típico garoto problema. Ou, para quem prefere definições mais populares, ele é o bad boy, o transviado – esse termo é antigo, aprendi com os meus pais -, o rei do pedaço. Aquele ao qual sistema ou autoridade nenhuma põe freio nem consegue conter nem com camisa de força. Anda pelas ruas com sua galera, zoando, fazendo bagunça pelas vias públicas e drogando-se em qualquer esquina, entre uma partida de basquete e outra e, principalmente, parando nos intervalos para escrever em seu diário narrativas complexas que mostram por um lado a imaturidade do jovem que acredita ser capaz de tudo, estar acima de qualquer lei, e por outro descrições poéticas e enaltecedoras de um mundo aprisionado por um corpo em rebeldia constante. Quando a vida que escolhe para si torna-se mais do que um vício, uma maldição (fazendo com que abandone os estudos, a família e tudo de mais importante que existia até então), ele vai percebendo que não só aquela existência é um beco sem saída como, pior do que isso se dá conta de que somente com seu intelecto e força de vontade não conseguirá vencer essa batalha.

A trilha sonora majestosa criada por Graeme Revell pontua bem as aflições e desajustes desse “homem” preso a um corpo infantil, conduzindo a um manancial de decepções que vai aumentando passo a passo num crescendo de destruição arrebatadora. O Roteiro de Bryan Goluboff, baseado no diário pessoal do próprio Jim, também é outro ponto chave da produção, por mostrar as ligações de amizade, respeito mútuo e lealdade entre os membros da gangue de jovens, mesmo num ambiente onde deveria reinar a desconfiança e os atos mais traiçoeiros possíveis. Talvez o que tenha faltado a Diário de um Adolescente tenha sido uma direção de fotografia inquietante, aprisionadora, opressiva, como se vê em filmes como Brilho Eterno de uma Mente sem lembranças, Ensaio sobre a Cegueira e O Escafandro e a Borboleta (ou seja, um realizador de imagens combinadas à iluminação que fosse capaz de incomodar com seqüências visuais opacas os olhares dos espectadores, perplexos diante de tamanha desesperança e tristeza).

Contudo, mesmo na ausência de imagens vibrantes, surreais, Diário se sai bem ao apresentar uma pequena parcela (pequena, mas poderosa) de uma geração de desajustados, numa época em que até mesmo as drogas não tinham o contexto degradante tão escancarado como tem hoje. Faz-se aqui um filme de transição para a atual geração de viciados em entorpecentes que temos hoje. Começamos a perceber a partir das jornadas de Jim Carroll, Pedro (James Madio), Neutron (Patrick McGaw) e Mickey (um Mark Wahlberg ainda revelação, mas que já mostrava as características marcantes do grande ator que se tornaria ao longo dos anos) os estereótipos que se tornariam moda nesse meio. E mais do que isso: o quanto o problema dos entorpecentes na humanidade é muito mais do que um problema social. Ele é um problema mental, psicológico e, acima de tudo, íntimo.





Segunda-feira, Janeiro 05, 2009

Crônica de uma Fuga, de Israel Adrián Caetano



Crônica de uma Fuga (Crónica de una fuga, de Israel Adrián Caetano, 2006, DVD, 103 Min.): ****.


Às vezes nos sentimos acuados, reféns de uma situação que não parece ter fim. Lutamos com todas as nossas forças e de nada adianta, pois o verdadeiro terror simplesmente insiste em ficar impregnado em nossas mentes e nos acompanhar ao longo de toda a nossa jornada. No caso da Ditadura – seja a que tivemos aqui no Brasil, ou em outros países da América Latina – essa opressão é ainda mais forte, mais física quando nos damos conta de que os conceitos de certo e errado, vilão e mocinho estão definidos de forma confusa, torpe, pois nunca se tem plena certeza de quem está com a razão e mesmo que saibamos, ainda assim fica difícil defender totalmente ela. Na época do Governo Geisel essa covardia conseqüente de atos extremados foi brutal. Na revolução cubana idem. Na Argentina, pelo que deixa claro a produção cinematográfica Crônica de uma Fuga, do diretor Israel Adrián Caetano, essa catástrofe violenta não foi menor nem em gênero, nem em número, muito menos em grau.

O filme se passa numa Buena Aires marcada por tempos negros em 1977. Claudio Tamburrini (Rodrigo de La Serna, excepcional) é um mísero goleiro de um time de segunda divisão que é preso por agentes do governo e levado para uma prisão clandestina conhecida como Mansão Seré. Ele não faz a menor idéia de porque foi pego e passará pelos maiores tormentos aos quais um homem é capaz de suportar. Entre interrogatórios e torturas constantes, aos poucos Claudio vai descobrindo que foi entregue por um delator cujo único desejo era dar tempo para que os verdadeiros terroristas pudessem escapar, o que gera nele além de um ódio incontrolável um desejo cada vez maior de liberdade que só poderá se concretizar através de uma fuga daquele lugar amaldiçoado. No entanto, para realizar uma façanha dessas é preciso muito mais do que cabeça fria e amor próprio.

O roteiro do próprio cineasta em parceria com Esteban Student e Julian Loyola, baseado no livro de memórias do próprio Claudio, é seco, atordoante, febril, sem meias palavras. A cada surra, a cada pergunta sem resposta, a cada fotograma maciço em sua brutalidade, percebe-se claramente o poder que uma injustiça cometida pode causar numa vida humana. A edição impecável de Alberto Ponce, vencedor do Festival de Havana, ajustada de forma irrepreensível a uma fotografia extraordinária em sua simplicidade de Julián Apezteguia garante o clima de exaustão e violência que a película exige (o que gera um incômodo evidente em toda a platéia. Entretanto, não será exatamente essa sensação de fobia e desespero que o diretor quer causar?).

Crônica de uma fuga – que, em alguns momentos me fez lembrar de O Caminho para Guantánamo, de Michael Winterbottom, não sei exatamente porquê – é um filme sujo, cruel, porém não menos brilhante e verdadeiro. Mostra de forma tênue um ensaio sobre a mentira e suas conseqüências nebulosas. Uma produção para que, ao final de sua projeção, nos perguntemos: por quanto tempo mais pessoas inocentes terão de pagar por erros alheios? Não era nascido à época da ditadura brasileira (e agradeço muito por isso!), mas é visível o tipo de cicatriz eterna que ela é capaz de causar não só em nossos corpos, mas, principalmente, em nossas mentes. Definitivamente, uma experiência para repensar a vida.





Sábado, Dezembro 27, 2008

Fatal, de Isabel Coixet


Fatal (Elegy, de Isabel Coixet, 2008, Estação Paço, 108 Min.): ***.


Por que somos assim, criaturas tão esquisitas? Por que dizemos uma coisa quando o que queremos realmente fazer é outra? “O ser humano é um Puzzle, um mosaico de sentimentos”, costumava dizer um dos meus professores da época do ensino médio, um simpático senhor de pouco mais de 60 anos que já havia passado por quatro casamentos frustrados, duas filhas que quase não via e disputas intermináveis na justiça por causa de pensões. Provavelmente foi a primeira vez na vida – eu tinha por volta de meus 15 anos – que percebi de fato o que era essa contraditoriedade chamada ser humano. Acreditei por um breve momento que nunca mais iria ver alguém como aquele homem (aquele professor) em toda a minha vida. Pensei que só iria aparecer alguém daquele jeito na minha frente somente uma vez, para que eu pudesse aprender um pouco de como eu seria no futuro. No entanto, a diretora Isabel Coixet com seu profundo Fatal, um estudo de caso bastante equilibrado sobre a masculinidade contemporânea, provou por a mais b o quanto eu estava enganado.

David Kepesh (Ben Kingsley em atuação vigorosa) é um homem de seu tempo: intelectual nato, professor universitário, escritor, crítico de arte, sempre atiçou a curiosidade e o desejo de suas alunas, sabendo administrar seu relacionamentos com excelente esmero. Prova disso é o relação carnal que tem com Carolyn (Patricia Clarkson) por mais de vinte anos, talvez a única mulher realmente madura com quem tenha se envolvido em todos esses anos de frenética exposição à beleza feminina jovem. Como o próprio personagem diz durante a projeção, ele é um homem que “inveja a beleza feminina” (chegando a ser considerado um refém desse sentimento). Contudo, todo esse autocontrole, toda essa facilidade de lidar com seus casos amorosos cai por terra quando conhece Consuelo Castillo (Penélope Cruz), uma jovem extremamente sensual, filha de cubanos exilados, que faz seu mundo virar de ponta a cabeça. Pela primeira vez esse homem maduro, dotado de discernimento suficiente para não se deixar envolver, apaixona-se. E logo a tragédia que se abate sobre sua vida ganha contornos nada agradáveis: ele torna-se obsessivo, ciumento, controlador, tudo aquilo que sempre abominou nos outros homens. À medida que sua insegurança vai aumentando, Consuelo vai ficando intimidada diante desse homem possessivo (que, entretanto, não perde seu encantamento íntimo). E o desfecho dessa história, com certeza, não será nada bom para o casal.

O roteiro de Nicholas Meyer não é estritamente fiel ao universo criado pelo escritor Philip Roth (um virtuose das obsessões humanas de longa data) no romance O Animal Agonizante. Muito pelo contrário: o roteirista parece ter preferido optar por um recorte psicológico da trama, ao invés de seguir ipsis literis a narrativa original. E por isso só essa escolha já foi alvo de críticas várias nos principais tablóides americanos e europeus. A fotografia de Jean-Claude Larrieu é bastante eficiente, pois faz meio que uma espécie de espelho entre o homem e o bicho irascível que existe dentro de David. Outro destaque que vale a pena ser conferido na trama é a interpretação de Dennis Hopper como o poeta amigo de Kepesh, praticamente um terapeuta do amigo, por parecer ser o único a realmente compreender aquele homem cheio de conflitos e reveses internos. E não custa nada dar uma conferida mais atenta na edição de Amy Duddlestone, que entrelaça os momentos racionais e irracionais do professor confuso de forma brilhante.

Fatal é isso: uma verdadeira sessão de terapia onde quem está deitado ao divã é um homem que sempre se acreditou dono de sua própria razão, alguém que jamais acreditou que naquela altura de sua vida (praticamente sete décadas de existência) passaria por um revés tão grande quanto amar alguém. É uma produção inteligente para pensarmos até que ponto sentimentos como amor, paixão e desejo nos afetam. Estamos tão acostumados a dizer que paixões fazem parte do território jovem (que somente adolescentes se encantam, se iludem, se martirizam em seus relacionamentos), que ficamos senão boquiabertos, pelo menos surpresos, quando percebemos que esse vírus – pois é isso que ele parece à primeira vista – é mais contundente e difícil de se livrar do que aparenta.



Segunda-feira, Dezembro 15, 2008

Cinturão Vermelho, de David Mamet



Cinturão Vermelho (Redbelt, de David Mamet, 2008, DVD, 99 Min.): ***.


Onde foram parar os dias de glória, do caráter acima de qualquer coisa, dos bons combates, justos, sem hipocrisias morais e interesses financeiros? Para onde foram mandados os verdadeiros heróis, aqueles capazes de nos encantar com seus gestos nobres e atitudes honradas? Parecem terem todos eles sucumbido ante um mundo que teima em repetir constantemente os mesmos erros, de forma por vezes infantil (tamanha a imbecilidade do ato), por vezes cruel, passando por cima de direitos alheios sem dó nem pena. No caso de Mike Terry (Chiwetel Ejiofor, numa interpretação iluminada), ele certamente é um exemplar raro dessa antiga dinastia de bravos lutadores, que se empenharam não pela fama ou pelos montantes de dinheiro conseqüentes de uma carreira vitoriosa, e sim pelo desejo de seguir uma doutrina, de lutar por uma causa e não por um cachê. Pena que o mundo onde está inserido – muito bem retratado na produção Cinturão Vermelho do diretor David Mamet – mostra suas garras de forma tão feroz e irascível, a ponto de fazê-lo se desmotivar com o jogo e, principalmente, com a vida.

O filme traça a história desse homem que decidiu não usar seu talento no jiu-jitsu para competir, pois acreditava que todo e qualquer tipo de competição tira toda a nobreza da arte marcial. No entanto, do outro lado da cerca (ou do ringue, para ser mais exato), encontram-se homens como Jerry Weiss (Joe Mantegna) e Bruno Silva (Rodrigo Santoro), empresários inescrupulosos do ramo de lutas cujo único desejo é arrecadar fortunas em espetáculos promovidos não para apresentar ao mundo o legado das artes marciais, mas sim para exaltar o status de um esporte que há muito não tem nada de esportivo (objetivo esse que lembra um pouco a crítica feita por Sylvester Stallone em seu recente Rocky Balboa). Como a vida de Terry não pode se basear apenas em honra e ética, pois ele – como todo ser humano – tem contas a pagar, a crise em sua vida aumenta com o acúmulo das dívidas em sua academia e o relacionamento conturbado com sua esposa Sondra (Alice Braga), uma mulher prática que vê a vida capitalista e monetária sob a égide dos “fins justificam os meios”. Para resolver seus problemas, ele decide participar de um torneio cuja premiação pode quitar suas dívidas e salvar seu casamento. Tudo parece simples até o momento em que descobre quais as verdadeiras intenções dessa competição e o que os organizadores fizeram com o esporte que tanto ama.

A grande força das imagens deve-se em sua maior parte ao conjunto do elenco (que por vezes derrapa em moralismos desnecessários é bem verdade, mas sem comprometer o resultado final). Outro destaque louvável cabe ao coreógrafo das cenas de luta, que dão realismo à trama. Talvez o que falte a Cinturão vermelho seja um ator que interprete um personagem realmente amoral (como um John Malkovich ou um Jeremy Irons, por exemplo) para engrandecer a trama e uma fotografia mais realista, que mostrasse de forma mais pungente os lutadores em ação, algo que Robert Elswit não conseguiu realizar a contento. No mais, Mamet consegue ser prolífico e correto em momentos essenciais da película, nos mostrando um retrato do mundo jiu-jitsuniano por trás dos holofotes, que é o que realmente interessa ser julgado.

Enfim, seguindo uma cartilha de tipos sociais muito bem construída ao longo de sua carreira (e que rendeu frutos interessantes em produções anteriores como O Assalto, com Gene Hackman e Danny DeVito), Mamet nos apresenta o que há de pior em negociatas esportivas, um microcosmo desse mundo espetacular em que vivemos, onde as únicas palavras que possuem algum valor são fama, dinheiro e status. Vejo o personagem Mike Terry não como um lutador, mas como um mártir (algo bem próximo da Tessa Quayle interpretada por Rachel Weisz em O Jardineiro Fiel, de Fernando Meirelles), um indivíduo isolado em meio a um mundo que não se cansa de corromper-se a si próprio. E, nessas horas, a única atitude que resta é observar. De longe.




Terça-feira, Dezembro 02, 2008

Queime Depois de Ler, de Ethan e Joel Coen



Queime Depois de Ler (Burn After Reading, de Ethan e Joel Coen, 2008, Kinoplex Nova América, 96 Min.): ***1/2.


O desespero é um sentimento degradante. Ele faz com que percamos o nexo de qualquer situação, que nos afundemos diante de qualquer ética ou moral só para realizarmos nossos sonhos mais doentios. E quando as coisas teimam em não sair da maneira como idealizamos, aí então é um Deus nos acuda. No caso específico dos irmãos Coen, eles sempre foram ótimos em mostrar as psicoses e bizarrices do ser humano quando o assunto é se dar bem (seja no que for). Foi assim em Fargo, em Arizona Nunca Mais, em O Homem que não Estava Lá, no recente vencedor do Oscar Onde os Fracos não têm vez e agora, mais uma vez de maneira brilhante, eles exibem seus holofotes sarcásticos nesse belíssimo Queime Depois de Ler, uma sátira muita bem construída sobre os filmes de espionagem, com todo o universo caótico que eles ajudaram a construir na história do cinema a que têm direito.

Tudo começa quando o analista da CIA Osbourne Cox (o extraordinário John Malkovich) demite-se da agência após ter sua fama de beberrão evidenciada pelos colegas de trabalho. Empenhado a dar um novo significado a uma vida sem nenhum glamour - é considerado um antipático pelo círculo social que freqüenta e a esposa Katie (Tilda Swinton) o trai com o agente do Ministério da Fazenda Harry Pfarrer (George Clooney) -, ele decide escrever suas memórias. Até então tudo bem. O que ele não contava é que o cd com as informações sobre o seu livro cai nas mãos da dupla Linda Litzke (Frances McDormand), uma mulher obcecada com sua estética, cujo único desejo é fazer algumas cirurgias plásticas que levantem a sua baixa estima, e Chad Feldheimer (Brad Pitt em papel inspirado), um personal trainner tresloucado, ambos funcionários de uma simples academia de ginástica. E o inferno astral começa: ambos vêem no conteúdo do CD dinamite pura capaz de atingir alguma nação estrangeira e fazem de tudo para lucrar com o achado.

Entretanto, a grande genialidade da dupla de cineastas está na maneira como compõem o plano de fundo da narrativa, através de inúmeros casos extraconjugais e situações infernais que, só pelo ridículo do contexto, garantem ao público uma comicidade sem igual. Mesmo personagens pequenos, como o superior da CIA interpretado por J.K Simmons (o J.J. Jameson do Homem-Aranha), são de uma simplicidade cômica magnífica, um misto de grotesco e humor negro, como só a dupla Coen é capaz de realizar.

Escrito durante a produção de seu filme anterior Queime Depois de Ler é um colírio para os olhos de quem deseja boas gargalhadas com um conteúdo ácido e muito bem medido por mãos seguras e alucinantes. Tem quem veja o filme com maus olhos, pois acredite que Ethan e Joel quiseram desmistificar a figura do espião. No entanto, vejo exatamente o contrário: Não será exatamente essa a vida dessas pessoas inseridas no mundo da espionagem? Não serão elas tão paranóicas a ponto de tornarem suas próprias vidas pessoais fragmentos dessa grande paranóia chamada CIA? Nesse ponto, devemos admitir: os diretores foram demais, apresentando-nos a um microcosmo de um mundo em ruínas, onde tudo parece perigoso, todos são vilões e nada, nunca, sob hipótese alguma, é o que parece (mesmo que seja!). Definitivamente, um filme para se ler as entrelinhas por trás de cada risada.